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Tem gringo no choro!

O Caderno Diversão&Arte, do Correio Braziliense desta quarta-feira (5/10), apresenta uma matéria sobre estrangeiros que estudam música brasileira em Brasília. E os alunos da Escola de Choro Raphael Rabello são alguns dos “gringos” citados e que estão aprendendo sobre o choro na cidade. Hoje, a Escola conta com 13 alunos estrangeiros, que são representados na matéria pelas histórias do francês Philippe Thevenoux, aluno de pandeiro; a holandesa Anna van der Heijden, aluna do curso de música e cultura popular brasileira; e do japonês Yoshihiro Miyamoto, aluno de cavaquinho.

Confira a matéria na íntegra:

TEM GRINGO NO CHORO!
Japonês no cavaquinho, francês no pandeiro, canadense no bandolim… Estrangeiros que estudam música brasileira na cidade contam suas histórias

Embora o canadense Jesse Rivest, 39, tenha se envolvido com uma brasileira que conheceu na Nova Zelândia, foi Brasileirinho (2005), filme do finlandês Mika Kaurismäki, que o arrebatou. “Meu primeiro trabalho na Nova Zelândia foi em um cinema independente, e os dois primeiros filmes que assisti foram Borat e Brasileirinho”, conta. “Vi esse filme e fiquei enamorado, especialmente com a música e as cenas do Rio de Janeiro. O percussionista Marcos Suzano apareceu no filme, gostei muito do pandeiro e do bandolim”, declara-se.

Foi o bandolim, aliás, que o canadense escolheu para estudar na Escola de Música de Brasília, cujas aulas frequenta há um ano e meio. Antes de se mudar para a cidade, no entanto, aventurou-se pelo pandeiro e pela Argentina. Lá, comprou o instrumento de percussão e tornou-se assíduo na embaixada brasileira em Buenos Aires, onde, duas vezes ao mês, assistia a rodas de choro.

Brejeiro, primeiro tango brasileiro de Ernesto Nazareth, publicado em 1893, foi uma das peças que o capturaram. “É uma música que não toco ainda, mas quero um dia”, diz Rivest, músico há 20 anos, e que tem na voz e violão a dupla de instrumentos mais habitual em suas apresentações.

Há uma década divulgando música brasileira, sobretudo o choro, no exterior, o violonista Henrique Neto, do grupo Choro Livre, relaciona a aceitação desse ritmo lá fora à sua estrutura, oriunda de estilos do continente europeu, como a valsa e a polca. “O choro é formado pela fusão da música africana e da europeia, então quando tocamos na Europa sinto que eles estão ouvindo algo que também é deles”, conta o instrumentista, que é vice-diretor da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, ligada ao Clube do Choro, onde estudam 13 estrangeiros.

PAIXÃO E CHORO
A primeira tomada de decisão do francês Philippe Thévenoux, 52, ao chegar a Brasília para trabalhar na Delegação da União Europeia, foi, segundo conta, ir ao Clube do Choro, numa quinta-feira de dois anos atrás. “Me apaixonei por esses conjuntos de instrumentistas, a forma de uma variedade de instrumentos tocar junto”, diz sobre as rodas de choro.

Admirador não só do choro, mas de todo o complexo musical do país, Philippe se encontrou com o Brasil, há mais de 20 anos, por meio da música. “Comecei a aprender realmente da cultura a partir desse interesse. Fiz muitas oficinas de canto, fiz parte de corais e grupos vocais com música brasileira. Tenho paixão por música brasileira. É muito presente em minha vida”, comenta o engenheiro agrônomo, que atua como baixo no Coral da Universidade de Brasília.

Na escola do Clube do Choro, o francês optou pelo pandeiro, por considerá-lo de mais fácil aprendizado e um melhor caminho para compreender a estrutura, os módulos e os fundamentos rítmicos de estilos como o choro, o baião e o maxixe. “Na França, poucos sabem o que é o choro e não se toca o pandeiro do mesmo jeito que no Brasil. Não sai tanto de um público de crianças ou jovens, é uma coisa mais infantil”, diz sobre o tambourin, o pandeiro francês.

MUSICALIDADE BRASILEIRA
Após dez anos morando nos Estados Unidos e outros cinco na China, a holandesa Anna van der Heijden, 42, chegou a Brasília há nove meses, onde trabalha com revisão de textos em inglês. Recentemente, se inscreveu no curso de música e cultura popular brasileira oferecido pela Escola Brasileira de Choro. “A professora disse que a música daqui tem influência indígena, portuguesa e africana. Na aula passada, uma pessoa que nasceu na Amazônia falou da cultura de lá, e também cantou”, relata.

Anna diz que já conhecia um pouco de MPB e samba, mas ainda não havia ouvido falar de outros gêneros, como choro e forró. “Eu gosto de choro, mas ainda é difícil saber que tipo de música está tocando. Para mim, simplesmente tudo é música brasileira”, conta, aos risos. “Por isso, queria usar as aulas para entender e apreciar melhor a música do Brasil”, emenda.

Nascida em San Francisco, a norte-americana Janae Millon, 25, viveu metade da vida no Brasil, após o pai, antropólogo, vir pesquisar a capoeira por um ano, mas acabar se fixando aqui. Hoje, ela estuda acordeon na Escola de Música de Brasília. “Muitos me perguntam por quê continuo no Brasil, e também têm essa visão com a música, de eu preferir as daqui, sendo que as que tocam na rádio costumam ser dos Estados Unidos. Dentro de uma visão mais antropológica, me sinto influenciada em ter um olhar diferente para o povo e a cultura brasileiras”, diz.

NOVA LINGUAGEM
O cavaquinho de Yoshihiro Miyamoto, 44 anos, foi presente de um amigo brasileiro para a esposa, em visita ao Japão, anos atrás. Pela segunda vez a trabalho no país, transferido pelo órgão estatal Japan International Cooperation Agency, Yoshihiro tocava, na terra natal, rock e bossa nova, por hobby, com o violão. “Choro é menos conhecido, não é muito comum lá. Mas os japoneses gostam muito de música brasileira, principalmente de bossa nova. Em cada restaurante que você for, ouvirá, mesmo que não queira, música brasileira”, afirma.

Com o instrumento, pouco utilizado até a matrícula na Escola Brasileira de Choro, Yoshihiro tenta compreender a sistemática do improviso e dos solos nas peças que estuda. “Tanto o choro como o pagode são ritmos bastante diferentes dos que eu tocava no Japão, e não consigo tocar direito. A maioria dos alunos está acostumada com esses ritmos desde criança”, justifica.

Rivest, o músico canadense, não sabe como serão suas composições no futuro, após o aprofundamento no choro. “Pois é muito instrumental, virtuoso. Exige que se domine a técnica. É diferente das minhas cenas de música”, explica.

Na opinião de Philippe, o francês, não é fácil encontrar rodas de choro lá fora, por ser mais restrito a aficionados da música tradicional brasileira. “Para mim, é um erro, porque é algo tão rico que tem potencial para viajar e se expandir no mundo.”

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